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14 Maio 2020

ORGÂNICOS EM ALTA

Demanda de alimentos sem agrotóxico cresceu na quarentena, impulsionada por saúde e ajuda ao pequeno produtor.

O paulistano Leandro Calegri faz tratamento de pisos e não pode ir ao trabalho desde 21 março, quando o governo federal determinou que serviços considerados não essenciais deveriam parar para ajudar a conter o avanço do novo coronavírus. Porém o carro que ele usava para realizar as funções continua em movimento, pelo menos dois dias na semana. De terças e sextas, Leandro tem rodado São Paulo para ajudar na distribuição de alimentos orgânicos pela cidade.

Ele é uma das pessoas que têm dado uma mãozinha para pequenos produtores da zona sul da capital paulista conseguirem suprir a procura pelos produtos que tem aumentado exponencialmente por causa do isolamento social. “Antes, realizávamos as entregas com um carro só. Agora precisamos de três. Aí chamei o Leandro para ajudar de vez em quando”, conta Vinicius Martuscelli Ramos, fundador do Balaio Orgânico, rede que vende cestas de alimentos orgânicos cultivados por pequenos agricultores da zona rural da região sul de São Paulo.

Os dois se conhecem há quase três anos. Quando Vinicius começou com a iniciativa, Leandro foi um dos primeiros clientes. “Desde sempre, toda terça, ele vem e me entrega. Mas, agora, com a grande demanda, o jogo virou e eu que passei a entregar. A gente tenta ajudar, mas mesmo assim não está sendo suficiente, às vezes.”

Antes da pandemia, a média semanal de entrega do Balaio Orgânico era de 35 a 40 cestas de alimentos. Hoje, só em um dia, Leandro sozinho entrega 35. Ao todo, foram 160 cestas entregues na primeira semana de isolamento social em São Paulo, e agora o número está entre 120 e 140 entregas a cada sete dias. “Eu não tenho tempo nem para respirar direito. Trabalho de segunda a segunda sem parar. Temos que aproveitar esse momento”, conta Vinicius.

E não tem sido só em São Paulo. A reportagem entrou em contato com outras iniciativas de capitais brasileiras, como Porto Alegre e Fortaleza. Algumas não tinham nem tempo de parar para dar entrevista. “A demanda aqui em nossa cidade sempre foi alta. Agora, com esta situação, percebemos o aumento tanto na demanda quanto nas dificuldades de entregar tudo. São muitos desafios nesse momento de transição”, conta Daniela Lagos, representante da Feira Agroecológica do Benfica, em Fortaleza, durante uma rápida troca de mensagens entre uma entrega e outra.

Consumidor está mais interessado

O cenário de pandemia e isolamento social ainda é muito novo. As iniciativas estão se organizando para lidar com a mudança brusca e dar conta da demanda deste último mês. Então, ainda não é possível trazer números concretos para afirmar qual foi o crescimento real da busca por alimentos orgânicos. O que tem acontecido é um constante monitoramento de organizações da cadeia produtiva.

O Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis) vem analisando a tendência de consumo e compra de orgânicos em boletins produzidos quinzenalmente. Para Clauber Cobi Cruz, diretor da organização, é possível observar que a cada semana existe uma mudança no comportamento de quem procura por orgânicos.

“No começo da quarenta, houve um pico muito acentuado. Alguns associados duplicaram, triplicaram as distribuições. Foi impressionante. Depois houve uma queda. A análise que a gente faz sobre esse momento é que houve muita gente com um certo ímpeto ou medo mais no começo e, por isso, quis estocar o que é possível estocar dentro do orgânico. E depois da terceira ou quarta semana começou a estabilizar, mas mesmo assim a procura tem ficado acima do que era antes”, diz.

Antes do surto de coronavírus, a estimativa da Organis era a de um crescimento de 10% no setor. Um número “conservador, mas factível”, como se referiu a organização. “Agora achamos que conseguiremos até mais por causa desse aumento na procura durante a quarentena. E também porque uma vez que o consumidor entra no orgânico, dificilmente ele vai sair”, afima Clauber.

Lucas Lima/UOL

Divulgação no boca a boca

“Você já sentiu o verdadeiro sabor de uma cenoura, por exemplo?” pergunta a bióloga Denise Palak. “Essa é a parte mais legal do orgânico. Você come um alimento e sente o verdadeiro sabor dele. A cenoura é doce, gostosa, tem um sabor mais forte. É uma delícia. Quando como algo convencional, acho que por causa de tantos anos comendo orgânico, percebo muito a diferença de sabor.”

Quando ela diz “tantos anos comendo orgânico” lê-se duas décadas. Desde 2000, ela e o marido optaram por consumir, em sua maioria, os produtos mais sustentáveis. Por estar inserida nesse mundo há tanto tempo, ela vem acompanhando a linha do tempo do interesse do orgânico de perto. “Vejo muita diferença, tanto na procura das pessoas quanto na quantidade de pessoas que passaram a vender. Tenho visto muita gente aqui mesmo na minha rua, por exemplo, que nunca tinha consumido ou que consumia pouco, e que agora está comprando muito”, conta.

Denise foi a responsável por apresentar a cesta de alimentos distribuídas pelo Balaio Orgânico para a vizinha Claudia Oliveira, que nunca teve o costume de comprar verduras e legumes orgânicos. “Fico pensando que se ela [Denise] tivesse sugerido isso em um outro momento, talvez eu não toparia começar a comprar orgânicos. E não toparia porque a gente comia muito fora de casa. Mas agora realizamos todas as refeições aqui. Conheci alguns itens que eu, sem dúvidas, vou continuar comprando: o pão de fermentação natural, estamos pedindo toda semana. Acho que vai virar hábito”, diz Claudia.

A publicidade e divulgação desses produtos de pequenos produtores, geralmente, acontece no boca a boca. Não estão em grandes redes de aplicativo de comida, por exemplo, e muitos nem site tem. O pedido dos alimentos é realizado por WhatsApp. Mensagens são enviadas com a lista de disponibilidade de alimentos na semana e o cliente escolhe quais ele quer. É como uma compra no mercado, só que em vez de colocar as frutas e legumes no carrinho, você escreve uma mensagem e depois recebe os produtos em casa.

Quando comecei a consumir orgânicos, o pessoal não sabia direito nem o que era essa expressão. Eu mesmo tentei começar a vender anos atrás, mas não tinha procura. Ficava no prejuízo. Não me assusta essa grande procura. Esse é o caminho natural. Já imaginávamos que algum dia, tudo que envolve saúde, despertaria. Ou pela consciência ou, infelizmente, pela dor.

Leandro Calegri, consumidor de orgânicos desde 2002

Lucas Lima/UOLLucas Lima/UOL

Saúde como carro-chefe

O crescimento, apesar de ter sido acentuado pela crise da Covid-19, não começou de agora. Na pesquisa “Panorama do Consumo de Orgânicos no Brasil, realizada pela Organis, 19% dos brasileiros compraram algum tipo de alimento orgânico em 2019. Dois anos antes, o número ficou na casa dos 15%. Do total, 67% se diz cada vez mais disposto a consumir mais produtos. Esses números também se traduzem em cifras — só no ano passado o mercado de orgânicos faturou R$ 4 bilhões. Para efeito de comparação, a indústria brasileira de alimentos cresceu 6,7% em 2019, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia). O faturamento chegou a R$ 699,9 bilhões, ante R$ 656 bilhões do ano anterior.

Segundo levantamento do Ministério da Agricultura, em 2010, o país registrava 5,4 mil unidades de produção orgânica. Em 2019, o número foi para 22 mil. Para a professora da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Food Research Center (FoRC), Daniele Maffei a procura por esses alimentos tem aumentado por um motivo que só ganhou mais força agora com o surgimento do novo coronavírus: a ligação entre a qualidade dos alimentos com a saúde.

“A gente vê que cada vez mais consumidores estão dispostos a pagar mais caro para comprar alimentos que são mais seguros para a saúde. Uma alimentação saudável deve incluir diversos nutrientes que são importantes para o nosso organismo, como carboidratos, vitaminas, minerais? Isso é importante, pois ajuda a manter nosso sistema imunológico em boas condições para se defender de possíveis infecções”, diz. Ela ressalta que esse tipo de alimento não tem a capacidade de deixar ninguém imune ao coronavírus, o que acontece é: “uma alimentação saudável fortalece nosso sistema imunológico”, diz Daniele.

Lucas Lima/UOLLucas Lima/UOL

Tem também a questão da beleza, né? Que vai ao encontro dos nossos padrões de beleza. Eles não são bonitos de fato. Mas é isso. Por exemplo, uma cenoura orgânica, às vezes vem pequena, outras com duas cabeças… É o processo natural dela.

Denise Palak, bióloga e consumidora de orgânicos

Muito além dos agrotóxicos

Este foi o caso do servidor público Bruno Scalco Franke. Pouco antes de começar o caos da pandemia, ele passou a se preocupar com a qualidade dos alimentos que estava consumindo. O motivo principal foi a quantidade de registros de agrotóxicos aprovados a serem utilizados nos plantios do país. Em 2019, o governo federal havia liberado 474 novos pesticidas, maior número já aprovado.

“Essa política de agrotóxico me deixou mais inseguro em consumir alimentos convencionais por não saber como isso estava sendo cuidado nos produtores das grandes redes. E aí veio a quarentena de coronavírus. Isso maximizou a necessidade de ter uma boa imunidade, de estar mais atento à própria saúde. Justamente pelo fato de estar consumindo mais refeições feitas em casa, isso me colocou em contato com os insumos da minha alimentação”, explicou Bruno.

A pesquisadora Daniela Maffei explica que, apesar de muitas pessoas acreditarem que alimentos são considerados orgânicos apenas por não serem produzidos sem veneno, eles, na verdade, apresentam outros aspectos durante o cultivo que englobam questões ambientais e sociais.

Já a consumidora Denise ressalta ainda a questão da sazonalidade: “Existe a época de cada alimento. Quando você começa a produzir sem respeitar essa época, você não aproveita ao máximo a energia do produto. Você força o negócio acontecer quando ele não deveria. É totalmente diferente de um alimento orgânico produzido na época dele, respeitando o tempo do alimento, com um processo de cultivo natural.

O que faz um alimento ser orgânico?

  • Adubação natural

  • Métodos alternativos de controle de pragas (sem uso de agrotóxicos)

  • Produção em pequena escala

  • Valorização do pequeno produtor e da agricultura familiar

  • Uso responsável do solo, da água e dos recursos naturais

O que diz a lei?

Considera-se sistema orgânico de produção agropecuária todo aquele em que se adotam técnicas específicas, mediante a otimização do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo a sustentabilidade econômica e ecológica, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energia não-renovável, empregando, sempre que possível, métodos culturais, biológicos e mecânicos, em contraposição ao uso de materiais sintéticos, a eliminação do uso de organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes, em qualquer fase do processo de produção, processamento, armazenamento, distribuição e comercialização, e a proteção do meio ambiente.

Lei No 10.831, de 23 de dezembro de 2003

Lucas Lima/UOLLucas Lima/UOL

Vontade de ajudar o pequeno produtor

Desde o começo de março, Bruno tem procurado redes de distribuição de alimentos orgânicos que entregassem em casa, em Porto Alegre, onde reside. Pesquisando com amigos que já compravam, chegou à Loja da Reforma Agrária. Antes, o estabelecimento funcionava abertamente para o público e era o único espaço para se comprar orgânicos dentro do Mercado Público de Porto Alegre. Com a pandemia, agora mantém suas portas fechadas e só realiza delivery.

A escolha por comprar no local, porém, não tem a ver apenas com questões de saúde como afirmou anteriormente. Preferiu a loja por serem alimentos cultivados em assentamentos. A preferência alimentar, então, também passa por questões sociais. “Tenho dado prioridade para eles porque o pessoal da reforma agrária do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] se mostrou muito solidário. Tiveram várias doações de alimentos que vieram desses movimentos. Eu sempre ligo e peço para a Jaqueline, tenho priorizado essas pessoas que também mostraram um senso comunitário em uma situação de dificuldade”, afirma.

A Jaqueline a quem ele se refere é Jaqueline Silva, gestora financeira da Loja da Reforma Agrária. Ela conta, apesar de estarem de portas fechadas, conseguiu observar que as vendas cresceram. E cerca de 50% das entregas que realizam durante a quarentena são de clientes novos.

“Claro que não é uma colocação feliz falar que tivemos benefícios. Mas eu acho que é um período para a sociedade perceber a importância de uma forma de produzir que respeita quem está trabalhando, produzindo, que é sem veneno para manter os alimentos, mas também os empregados saudáveis”, diz Jaqueline Silva.

Tentar ajudar o pequeno comércio tem sido também outra motivação para comprar orgânicos, para os entrevistados pela reportagem. Tanto para os novatos quanto para os que já estavam mais do que acostumados a comprar orgânicos. Este tem sido o jeito que encontraram para tentar manter o emprego de quem atua localmente.

“É legal porque agora existe uma campanha da galera para comprar do pequeno, né? Precisou que a situação econômica mudasse para justificar uma transição de consumo gradual para pequenos produtores”, comenta Leandro Calegari.

Ecoa fez uma lista para facilitar a busca de quem quer conhecer pequenos produtores que têm oferecido serviço de delivery durante a quarentena.

Lucas Lima/UOLLucas Lima/UOL

O barato dos orgânicos

Orgânicos custam mais caro. Isso é um fato. Mas há ponderações e alternativas que podem ser encontradas para equilibrar a conta no fim do mês.

O diretor da Organis, Clauber Cobi Cruz, levanta a questão da priorização dos gastos e o uso de pesos diferentes por quem pode pagar a mais por alimentos de qualidade. “Existe uma classe média que nunca se dispôs a pagar o preço de um orgânico da mesma maneira que paga por uma cerveja artesanal, por exemplo. Existe orgânico de preço caro? Existe. Mas também existe orgânico com preço justo por causa do tipo de cultivo”, aponta ele.

Para Bruno, por exemplo, o que importa é usar o privilégio para fortalecer a rede local. “O único ônus é que é mais caro mesmo. Mas aí é uma opção de pagar mais pelo benefício de saúde que isso traz. Claro, eu tenho uma situação um pouco mais privilegiada como servidor público. Entendo que isso seja um privilégio, mas aí entra minha parte nesse ciclo de solidariedade, que é usar desse privilégio para beneficiar os produtores locais.”

O segredo para pagar mais barato está em buscar formas alternativas de compra, como as feiras especializadas e os Grupos de Consumo Responsável (GCR), iniciativas de consumidores que se organizam para manter uma relação direta com os produtores, como mostrou reportagem especial de Ecoa, em novembro do ano passado.

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